Paladar infantil: existe mesmo comida de criança?

Paladar infantil: existe mesmo comida de criança?

Minha filha tem 5 anos e adora salada. Aqui em Barcelona tem uma folha muito comum, os canónigos, que é uma das preferidas dela. Parece com rúcula, tá?

Muitas vezes ela mesma abre a geladeira, pega o pacote e começa a preparar a salada. E, enquanto prepara, vai comendo as folhas assim mesmo, sem tempero, sem nada.

É uma cena absolutamente comum aqui em casa, mas não é tão comum assim a reação das pessoas quando veem, principalmente por ser uma folha verde-escura e talvez um pouco “picante”.

“Ela gosta de salada?”

Outro dia fiquei pensando justamente nesse espanto das pessoas ao vê-la comer. Porque provavelmente ninguém acharia curioso se eu dissesse que minha filha adora sorvete, batata frita ou chocolate. Afinal, essas são coisas “de criança”, não é?

O que chamamos de paladar infantil

Vamos repensar o paladar infantil: por que é hora de abolir esse termo?

E foi aí que me ocorreu uma expressão que usamos o tempo todo: paladar infantil.

Quando dizemos que alguém tem paladar infantil, normalmente não estamos imaginando uma pessoa que adora frutas, experimenta legumes diferentes ou come folhas direto do pacote enquanto prepara uma salada.

Estamos falando de alguém que prefere doces, frituras, massas, hambúrgueres, nuggets e outros alimentos que, por algum motivo, aprendemos a relacionar à infância.

Mas por quê? Em que momento decidimos que esse é o paladar das crianças e, pior, que essas são as comidas de que as crianças gostam?

Da introdução alimentar ao “prato de criança”

A pergunta me parece ainda mais curiosa quando penso nos primeiros anos de vida. Quando um bebê começa a comer, existe todo um cuidado em apresentar alimentos diferentes. Banana, abacate, brócolis, feijão, cenoura, manga, arroz, ovo, tomate, temperos. Há uma busca grande por variedade de texturas, cores, sabores, preparos.

Ficamos felizes quando ele experimenta, quando pega o alimento com as mãos, quando demonstra curiosidade.

E então, alguns anos depois, parece quase natural esperar que essa mesma criança queira viver de macarrão, batata frita e ultraprocessados.

Comida de criança: uma construção dos adultos?

Paladar infantil: criança comendo vagem com as mãos, com pepino e batata frita no prato

Talvez o chamado “paladar infantil” diga menos sobre o paladar das crianças e mais sobre aquilo que nós, adultos, fomos construindo como comida de criança.

Basta olhar, por exemplo, para muitos cardápios infantis. Enquanto os adultos escolhem entre diferentes pratos, ingredientes e preparações, para as crianças frequentemente reservamos um pequeno universo à parte, muito mais previsível e limitado, com oferta de macarrão, frango, batata frita.

Lembro de ir num restaurante quando criança e o prato infantil ser: macarrão, batata frita e milkshake. Nada equilibrado, nada saudável.

E não é coisa de antigamente, não, porque há pouco tempo atrás fui em um restaurante tipo buffet que oferecia uma parte “especial” para as crianças, com muita fritura e zero legumes ou verduras. Como assim?

Como se já soubéssemos, antes mesmo de perguntar, aquilo de que elas são capazes de gostar.

E não estou dizendo com isso que criança não deva comer batata frita, sorvete ou chocolate. Antonella come. E gosta.

A criança “perfeita” à mesa não existe

Também não estou dizendo que toda criança vai abrir a geladeira e começar a comer folhas de salada. Crianças têm preferências, atravessam fases, recusam alimentos e podem precisar de muitas aproximações até se sentirem confortáveis com determinados sabores e texturas. E tudo isso sabemos que faz parte do processo.

Mas talvez seja justamente aí que esteja a questão e que nosso olhar precisa parar e analisar.

Não precisamos criar uma nova expectativa de que a “boa criança é aquela que come frutas, verduras e saladas, que aceita experimentar tudo e não recusa nada”. Essa criança “perfeita” não existe (até porque como minha filha mesmo fala: “perfeito não existe”). Isso seria apenas substituir uma pressão por outra.

Mas podemos tomar cuidado para não ensinar, mesmo sem perceber, que alguns alimentos pertencem às crianças e outros pertencem aos adultos, que verduras não são tão gostosas como sorvete, entende?

Como ampliar o paladar infantil sem pressão

Podemos continuar oferecendo, sendo exemplo de alimentação. Nosso papel é oferecer e o da criança é escolher ou não comer.

Podemos deixar que participem, envolver no preparo, levar ao mercado para cheirar, tocar.

E talvez elas não gostem hoje de algo e está tudo bem. Nós também não gostamos de tudo. E não gostamos hoje, mas talvez amanhã, ou preparado de outra maneira, seja novamente gostoso.

Podemos não decidir antecipadamente quais sabores são “difíceis demais” para elas.

Quando minha filha abre a geladeira e começa a preparar sua salada, ela não sabe que aquilo deveria ser surpreendente, que gera estranheza em algumas pessoas. Para ela, são apenas folhas que ela gosta de comer enquanto nos ajuda a preparar a refeição.

Talvez sejamos nós, adultos, que precisemos rever o que aprendemos a chamar de paladar infantil.

Perguntas frequentes sobre paladar infantil

1. O paladar infantil pode ser mudado?

Sim. O paladar se forma ao longo da vida, e a convivência com alimentos variados, em um ambiente tranquilo, ajuda a criança a aceitar novos sabores com o tempo.

2. É normal a criança recusar alimentos que antes comia?

É comum. Entre os 2 e os 6 anos, muitas crianças passam por uma fase de mais desconfiança com alimentos, chamada neofobia alimentar. Costuma ser passageira quando o alimento continua sendo oferecido sem pressão.

3. Quantas vezes devo oferecer um alimento que a criança recusou?

Não existe um número exato. Algumas crianças precisam de muitas exposições até aceitar um alimento. Vale oferecer de novo em outros dias e em preparos diferentes, sem obrigar.

4. Devo esconder legumes na comida para a criança comer?

Pode ser uma forma de acrescentar nutrientes, mas não ajuda a criança a conhecer o alimento. O ideal é que ela também veja o legume inteiro no prato, para se familiarizar com ele.

5. Criança pode comer doce e batata frita?

Pode, com moderação e dentro de uma rotina variada. A ideia não é proibir, e sim evitar que esses alimentos sejam a única referência de “comida de criança”.

6. Como incentivar a criança a comer salada?

Deixe que ela participe do preparo, escolha as folhas, monte o próprio prato e veja os adultos comendo salada com prazer.

7. Quando a recusa alimentar deixa de ser uma fase?

Quando a criança aceita pouquíssimos alimentos, tem reações intensas diante de novos sabores ou quando o peso e o crescimento são afetados. Nesses casos, procure o pediatra e o nutricionista infantil.


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Foto de Luciane Correa | Psicopedagoga
Luciane Correa | Psicopedagoga
Especialista em Acolhimento e Orientação na educação respeitosa.

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