Ultraprocessados na infância nas periferias do Brasil

Alimentos Ultraprocessados e Infância nas Periferias do Brasil: o que ainda temos a aprender

Entenda o impacto dos ultraprocessados na infância e nas periferias e os desafios da alimentação em contextos vulneráveis.

O ambiente onde vivemos é um dos principais fatores que influenciam nossos hábitos, rotinas e alimentação.

Diversos estudos apontam o aumento do excesso de peso entre crianças brasileiras, especialmente em famílias de baixa renda. Um estudo recente do UNICEF, realizado em bairros periféricos de capitais brasileiras como Guamá, Ibura e Pavuna, trouxe evidências relevantes sobre padrões alimentares e de atividade física na primeira infância. A pesquisa também identificou barreiras e facilitadores para a adoção de hábitos mais saudáveis, leia mais aqui.

Hoje já existe um amplo conhecimento sobre a baixa qualidade nutricional dos alimentos ultraprocessados e seus impactos negativos na saúde, principalmente em crianças. Ainda assim, muitas famílias que desejam oferecer o melhor para seus filhos acabam recorrendo a esses produtos.

Parte dessa realidade está relacionada ao acesso à informação e, principalmente, ao acesso aos alimentos.

Por que os ultraprocessados ainda fazem parte da infância?

O estudo mostra que muitos alimentos ultraprocessados são vistos como uma conquista geracional. Para algumas famílias, oferecer esses produtos representa dar aos filhos algo que não tiveram na infância.

Itens como iogurtes saborizados, biscoitos recheados e salgadinhos passam a ser associados a carinho, recompensa e até a uma infância feliz.

Outro fator importante é a dificuldade de compreensão dos rótulos. Muitas embalagens, especialmente as voltadas ao público infantil, transmitem uma falsa ideia de saudabilidade. Termos técnicos ainda não fazem parte do cotidiano de muitas famílias, que acabam classificando os alimentos de forma simples, como “faz mal” ou “não faz mal”.

Ainda assim, o estudo traz um dado importante: famílias que reconhecem os ultraprocessados como prejudiciais tendem a oferecê-los com menor frequência. Isso reforça que o conhecimento é uma ferramenta de proteção.

Ultraprocessados, preço e acesso nas periferias

Se no passado os ultraprocessados eram caros e menos acessíveis, hoje o cenário é diferente. Muitos desses produtos têm custo mais baixo do que alimentos in natura, como frutas, legumes e carnes.

Essa diferença impacta diretamente as escolhas alimentares, principalmente quando o orçamento familiar é limitado. Nesse contexto, o preço acaba sendo um dos principais determinantes da decisão de compra.

Comportamento alimentar infantil na primeira infância

O estudo também identificou padrões importantes no comportamento alimentar das crianças:

  • Refeições realizadas com distrações, principalmente telas desde cedo
  • Pouca organização nos horários das refeições
  • Consumo frequente de lanches à base de biscoitos, doces e alimentos prontos

Além disso, o uso de equipamentos como a air fryer, apesar de prático, pode aumentar o consumo de produtos industrializados, como nuggets e batatas fritas congeladas, que passam a ser percebidos como opções mais saudáveis por não serem fritos em óleo.

Alimentação infantil: entre comida caseira e ultraprocessados

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Um ponto importante é que o consumo de alimentos in natura não desapareceu. Ele convive com os ultraprocessados no dia a dia das famílias.

De forma geral:

  • Almoço e jantar concentram mais preparações caseiras
  • Café da manhã e lanches concentram maior presença de ultraprocessados

Mesmo assim, alguns riscos nutricionais foram observados:

  • Uso excessivo de óleo e temperos prontos
  • Baixo consumo de vegetais
  • Presença frequente de bebidas adoçadas nas refeições principais

O papel da indústria e da comunicação

Ao analisar esse cenário, é importante considerar o papel da indústria de alimentos.

Produtos com baixo valor nutricional são frequentemente associados a elementos que aumentam sua atratividade, como personagens infantis, embalagens chamativas e alegações de vitaminas e minerais.

Essas estratégias constroem uma percepção de alimento adequado, mesmo quando a composição nutricional não é favorável.

Outro ponto de atenção é a interpretação das informações nutricionais. Ainda há confusão em relação à rotulagem frontal, como o símbolo de alerta, que indica alto teor de nutrientes críticos, mas pode ser interpretado de forma equivocada.

Desafios reais da alimentação infantil nas periferias

É fundamental considerar o contexto em que essas escolhas acontecem.

Muitas famílias, especialmente mães, acumulam responsabilidades com o cuidado dos filhos e a manutenção financeira da casa. O cansaço, a sobrecarga e a falta de rede de apoio tornam os ultraprocessados uma solução prática. São alimentos que não estragam facilmente, exigem pouco preparo e costumam ser bem aceitos pelas crianças.

Além disso, o chamado ambiente obesogênico vai além da alimentação. Questões como violência, falta de infraestrutura e ausência de espaços seguros impactam diretamente o tempo de atividade física e aumentam o tempo de tela.

Como melhorar a alimentação infantil em contextos vulneráveis

Diante de um cenário complexo, o foco não deve ser a responsabilização das famílias, mas a construção de soluções possíveis e acessíveis.

Dentro de casa, quando possível:

  • Priorizar a comida caseira simples do dia a dia
  • Reduzir a presença de ultraprocessados considerados “seguros”
  • Planejar compras incluindo frutas e alimentos mais acessíveis

Na comunidade:

  • Fortalecer redes de apoio entre vizinhos
  • Incentivar hortas comunitárias
  • Valorizar espaços coletivos de alimentação e convivência

Como sociedade:

  • Cobrar políticas públicas que ampliem o acesso a alimentos saudáveis
  • Avançar na regulação da publicidade infantil
  • Garantir alimentação escolar de qualidade
  • Investir em espaços seguros para o brincar

Alimentação infantil nas periferias é uma questão de justiça social

Falar sobre alimentação infantil em contextos vulneráveis é falar sobre justiça social.

Ampliar o acesso à informação, fortalecer as famílias e construir ambientes que favoreçam escolhas mais saudáveis são passos essenciais para promover o desenvolvimento infantil.

Sempre que possível, vale lembrar que o conhecimento ajuda a fazer escolhas mais conscientes e reduz a influência de fatores externos nas decisões do dia a dia.


Perguntas frequentes sobre ultraprocessados na infância

1. O que são alimentos ultraprocessados?

São produtos industrializados com muitos ingredientes, como açúcares, gorduras, aditivos e conservantes. Geralmente têm baixo valor nutricional e alta palatabilidade.

2. Por que os ultraprocessados são mais consumidos em famílias de baixa renda?

Principalmente por serem mais baratos, práticos, durarem mais tempo e exigirem pouco preparo, além de serem amplamente divulgados.

3. Como reduzir o consumo de ultraprocessados na infância?

Pequenas mudanças já ajudam, como priorizar comida caseira simples, reduzir a compra desses produtos e oferecer frutas e preparações básicas no dia a dia.

4. Alimentos ultraprocessados podem fazer parte da rotina infantil?

O ideal é que sejam consumidos com pouca frequência. A base da alimentação deve ser composta por alimentos in natura ou minimamente processados.

5. Como identificar se um produto é ultraprocessado?

Observe a lista de ingredientes. Produtos com muitos itens, nomes pouco conhecidos e presença de aditivos indicam maior grau de processamento.

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Foto de Giselle Gattai | Nutricionista
Giselle Gattai | Nutricionista
Sou Nutricionista com Especialização em Nutrição Clínica em Pediatria pelo Instituto da Criança - HCFMUSP. Me tornar mãe de duas meninas me transformou e hoje meu propósito é ajudar famílias a melhorarem a forma de se alimentar e a forma de conduzir a alimentação das crianças, contribuindo para a prevenção de doenças relacionadas à má alimentação. Acredito na Nutrição desde o início da vida, Nutrição que vai além dos alimentos que comemos, inclui a forma como comemos, onde nos alimentamos, com quem... Enfim, esse universo que envolve o comportamento alimentar.

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